domingo, 27 de maio de 2018

Eutanásia


Uma das coisas que mais me tem incomodado nesta discussão toda sobre a Eutanásia é a pouca capacidade que as pessoas têm em perceber qual o busílis da questão. Sim, eu entendo que as pessoas que sofram de cancro, as pessoas com doenças em fase terminal são as que mais sofrem em termos de dor e acabar com essa dor poderia ser uma maneira de dar um final menos doloroso a essas pessoas. Concordo a 100% com esse ponto de vista, mas para mim, não é o ponto principal. De todos os textos/crónicas que li, todos eles falavam de cancro e, não me entendam mal, o cancro mata, as pessoas acabam por morrer, mais tarde ou mais cedo irão morrer. Para mim o ponto principal, as pessoas para quem, para mim a Eutanásia faz mais sentido, são as pessoas que por alguma razão perderam toda a sua autonomia e independência. Se calhar por ter vivido o problema de perto, por ter sentido o que é ser tetraplégico, o ter ficado dependente durante tanto tempo de pessoas penso mais nisto. Não percebem o quão humilhante, sim, é humilhante, darem-nos banho com 16 anos. Imaginem isto para toda uma vida… Eu acho que este é o ponto principal porque este não tem fim. Não tem dor física, verdade, mas também não tem fim nem esperança que vá acabar.
Quando fazia fisioterapia tive a meu lado cerca de uma semana um rapaz tetraplégico com suporte de respiração e com uma situação, ao contrário da minha, irreversível. Aquilo tocou-me tanto que ainda hoje, passado quase 9 anos, penso nisso. Era um rapaz com a idade que tenho agora praticamente. Ficou assim devido a uma bactéria enquanto ajudava o pai a transportar feno… Não sei como está neste momento, não sei se por milagre recuperou, não sei se acabou por falecer, não sei se continua igual. Entre a morte e continuar na cama sem conseguir respirar por si não sei o que lhe desejo. Gostava que ao menos ele pudesse ter escolhido como acabava a vida dele na Terra e se ele acreditasse num céu ou nalguma dimensão diferente, que pudesse ter a opção de acabar a sua vida com alguma dignidade tomando, a única opção para a qual ainda tinha liberdade.