Uma das coisas que mais me tem incomodado nesta discussão toda
sobre a Eutanásia é a pouca capacidade que as pessoas têm em perceber qual o
busílis da questão. Sim, eu entendo que as pessoas que sofram de cancro, as
pessoas com doenças em fase terminal são as que mais sofrem em termos de dor e
acabar com essa dor poderia ser uma maneira de dar um final menos doloroso a
essas pessoas. Concordo a 100% com esse ponto de vista, mas para mim, não é o
ponto principal. De todos os textos/crónicas que li, todos eles falavam de
cancro e, não me entendam mal, o cancro mata, as pessoas acabam por morrer,
mais tarde ou mais cedo irão morrer. Para mim o ponto principal, as pessoas para
quem, para mim a Eutanásia faz mais sentido, são as pessoas que por alguma
razão perderam toda a sua autonomia e independência. Se calhar por ter vivido o
problema de perto, por ter sentido o que é ser tetraplégico, o ter ficado
dependente durante tanto tempo de pessoas penso mais nisto. Não percebem o quão
humilhante, sim, é humilhante, darem-nos banho com 16 anos. Imaginem isto para
toda uma vida… Eu acho que este é o ponto principal porque este não tem fim. Não
tem dor física, verdade, mas também não tem fim nem esperança que vá acabar.
Quando fazia fisioterapia tive a meu lado cerca de uma
semana um rapaz tetraplégico com suporte de respiração e com uma situação, ao contrário
da minha, irreversível. Aquilo tocou-me tanto que ainda hoje, passado quase 9
anos, penso nisso. Era um rapaz com a idade que tenho agora praticamente. Ficou
assim devido a uma bactéria enquanto ajudava o pai a transportar feno… Não sei
como está neste momento, não sei se por milagre recuperou, não sei se acabou
por falecer, não sei se continua igual. Entre a morte e continuar na cama sem
conseguir respirar por si não sei o que lhe desejo. Gostava que ao menos ele
pudesse ter escolhido como acabava a vida dele na Terra e se ele acreditasse
num céu ou nalguma dimensão diferente, que pudesse ter a opção de acabar a sua
vida com alguma dignidade tomando, a única opção para a qual ainda tinha
liberdade.
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