terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Para a Teresa


Hoje senti uma necessidade grande de aqui voltar. Não que venha aqui alguém ler o que escrevo de quando em vez, mas hoje senti uma necessidade grande de prestar uma homenagem que me arrependo de não ter feito em vivo.


A minha história, a história do que se passou no dia 23 de agosto de 2009 e nos dias que sucederam a esse soalheiro domingo, tem várias camadas, tem vários capítulos que um dia deixarei em palavras para a eternidade. Essa eternidade que tantas vezes falamos e que quando vamos envelhecendo vamos perceber que não existe. 


A história que falo aqui é de uma Mulher. Uma pessoa que acho que nunca soube o quanto eu fiquei agradecido pelos simples gestos que teve para comigo. A vida é isto também… Pequenos gestos, inesperados, improváveis e simples. Um amigo é isso também e é nestes pequenos gestos que conseguimos ver quem gosta de nós.


A Lutadora de quem falo hoje foi uma das pessoas que conheci no ano do meu acidente. Tia de amigos meus, Mãe de duas amigas que fiz nesse verão, amiga de quem quisesse conversar com ela. Não posso dizer que tenha privado muito com ela, era um miúdo, sem grandes conversas para ter com adultos, mas lembro-me da voz rouca e do cigarro entre os dedos. Lembro-me do sorriso e de a ouvir dizer o meu nome sempre que me cumprimentava.

No dia do acidente ela estava lá. Elas tinham acabado de chegar quando eu fui mergulhar na água fria de Moledo e onde tive o meu acidente.

Enquanto eu estava deitado em cima da prancha de Surf, ela foi para a estrada avisar a ambulância que era ali que eu estava. Soube depois que, provavelmente com a pressa e com o nervosismo torceu um pé ao fazer isto. Eu sei que pode parecer mentira as coisas de que me lembro, foi há 10 anos e lembro-me demasiado bem de todos os pormenores desse dia.

Não foi fácil transportar a maca comigo em cima nos passadiços ingremes da praia. Eu sentia-me nervoso, não sabia o que ia acontecer, não sabia o que se passava comigo, mas lembro-me, ou a minha cabeça faz com que seja verdade, de a ver a olhar para mim. Tentou perceber como eu estava, mas mais que isso, sorriu para mim como que a dar-me coragem, a transmitir-me força com um sorriso que dizia “vai correr tudo bem”.

Depois de ter estado o dia inteiro no Hospital de Viana fui transferido para o Hospital de São João, numa viagem de ambulância que nunca mais acabou. Conta-me a minha mãe, que já no Porto, no fim da viagem, na saída para o Hospital de São João, o carro que foi o tempo todo à frente da ambulância ligou os 4 piscas e avançou.

“Este carro foi o tempo todo a “abrir-nos caminho” e agora despediu-se” disse o bombeiro. Dentro desse carro ia esta Guerreira e o marido, amigos que vou levar para a vida, sem eles saberem da gratidão que sinto por tão pequeno, mas tão genuíno gesto.

Ontem a Teresa partiu. Lutou com tudo o que tinha nos últimos anos e a vida decidiu ser injusta para ela. Não estive muitas vezes com ela, mas fez-me chorar, algo que não acontece com regularidade.
Decidi escrever este texto como uma pequena homenagem a alguém que de certeza encheu os seus mais próximos de gestos que lhes tocaram como estes tocaram em mim.

Que um dia nos encontremos, demos um abraço e um beijinho e lhe dia o quão foi importante para mim, é o que mais desejo neste momento, Tia Teresinha.